domingo, junho 25, 2017

Semanada

Esta foi a semana em que o diabo veio (finalmente), estava combinado aparecer em Setembro ali para os lados do ministério das Finanças, mas acabou por aparecer em Pedrógão Grande, uma localidade que em poucas horas se transformou numa imagem do inferno. O pessoal do PSD que estava instalado a tempo inteiro no terreiro do Paço, esperando pela queda de Centeno percebeu rapidamente a nova oportunidade, mudou-se de armas e bagagem para a Administração interno.

Passos Coelho bem começou a encenação do político que não se aproveita da desgraça alheia, algo que já tinha feito com a crise financeira e com o Caso marquês. Mas a ansiedade dos seus deputados é tanta que desta vez o próprio Passos foi ultrapassado, propôs uma comissão técnica para avaliar os acontecimentos, mas o seu grupo parlamentar forçou um debate parlamentar sem quaisquer relatórios técnicos, só para aproveitar os acontecimentos.

Ninguém reparou, mas há uma figura grada do mundo autárquico do PSD que está a viver o seu próprio inferno, acompanhado de mais alguns companheiros. Hermínio Loureiro, homem forte de Oliveira de Azeméis e uma ponte entre o PSD e o mundo da bola está passando o fim de semana nas instalações hoteleiras da PJ

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Luís Valente de Oliveira, mandatário do candidato populista

O que não faltou a Valente de Oliveira foram boas oportunidades de se ter demitido do PSD, podia tê-lo feito, por exemplo, quando Passos o ignorou na hora de preencher a vaga de membro da Comissão europeia. Chegar ao fim da carreira política e demitir do seu partido para apoiar um político que sofre de homofobia democrática talvez não tenha sido a melhor das ideias.

Podia ter-se demitido em oposição a políticas, opta-se por se demitir para não ser expulso.

«luís Valente de Oliveira enviou, esta semana, uma carta ao líder do PSD, Pedro Passos Coelho, a pedir a sua desvinculação de militante do seu partido de sempre. Na origem da decisão está o convite de Rui Moreira ao histórico social-democrata para ser mandatário da recandidatura independente “Porto, o Nosso Partido”. O presidente da Câmara do Porto confirmou ao Expresso que, tal como nas autárquicas de 2013, o seu mandatário será Valente de Oliveira, que já confirmou o convite e “autorizou que o mesmo fosse divulgado”, tendo ainda revelado que se desfiliaria do PSD para evitar embaraços políticos e eventuais processos disciplinares. Embora ainda não haja data do anúncio formal da candidatura, Rui Moreira fez questão de manter para as eleições de 1 de outubro o seu primeiro mandatário. 
Ao contrário do que sucedeu nas últimas autárquicas, em que manteve o cartão apesar do apoio a Moreira em detrimento do candidato do partido, Luís Filipe Menezes, Valente de Oliveira optou agora por abandonar o partido, esquivando-se a ser repetente num quadro de possíveis ameaças de represálias disciplinares.» [Expresso]

 Proteger as estradas ou proteger as florestas

Durante décadas o país plantou árvores nas bermas da estrada para sombra e para fins decorativos, as árvores pertenciam ao estrado que exploravam a sua madeira e mesmo a fruta ou frutos secos, como as amêndoas, era trabalho da JAE. Os tempos mudaram e os enormes eucaliptos e pinheiros nas bermas das nossas estradas transformaram-se em armadilhas mortais. Ainda hoje há muitas estradas onde um descontrolo na direção do carro pode ser pago com a morte.

Quando os incêndios se começara a multiplicar as estradas foram apontadas como inimigas da florestas, ninguém questionava se nas bermas haviam pinheiros, eucaliptos ou carvalhos, os ambientalistas ainda não dominavam a comunicação social, os estudos de impacto ambiental ainda não eram um excelente negócio para empresários e consultores que se iniciaram nas associações ambientais.

Os carros e os seus ocupantes eram inimigos da floresta porque com fagulhas ou beatas de cigarros provocavam incêndios. Era necessário proteger as florestas dos carros limpando as suas bermas. Só que faixas de terreno com quilómetros e quilómetros de terreno é muita terra mal aproveitada, a consequência é que estradas como a EN236 apresentam troços em que as árvores estãio tão junto às duas bermas que em caso de incêndio foram um túnel de fogo com centenas de graus.

Foi preciso uma combinação de fatores para que se concluam que afinal o importante não é proteger a floresta dos carros e das pessoas, mas sim proteger as pessoas das florestas e dos seus incêndios cada vez maiores, porque há mais floresta, e cada vez mais violentos porque há mais combustível.

 António Costa deve um pedido de desculpas

António Costa parece ter acreditado no sindicalistas dos impostos e ainda na oposição lançou uma cruzada contra aquilo a que se designou por "Lista VIP", chegou mesmo a dizer que o caso merecia um processo crime, o que vindo de alguém que tinha sido ministro da Justiça merecia alguma atenção.

Entretanto, a IGF investigou, o MP investigou e a AT investigou. A IGF fez o que lhe cabia fazer, fez o relatório da conveniência, aquilo a que designa por frete. Mais não era de esperar de uma instituição que pouco tempo antes tinha andado a vasculhar as mensagens de email de todos os funcionários do fisco, num processo que foi devidamente abafado, isto é, ninguém ficou a saber o que se passou.

Mas o MP concluiu que os funcionários que foram sacrificados por causa da lista VIP, a mesma conclusão chegou o processo disciplinar da AT. Isto é, é cada vez mais óbvio que vários funcionários foram vítimas de um processo sujo conduzido com o objetivo de prejudicar pessoas, aquilo que na Sicília se designa por vendetta. Alguns funcionários demitiram-se ( uma forma cínica de ser demitido) e António Costa chegou a primeiro-ministro,

António Costa caiu na esparrela e agora devia pedir desculpa aos funcionários cuja carreira ajudou a destruir e à própria AT, é o preço de ter alinhado no debate político de casos e casinhos.
      
 Um fim de semana mal passado
   
«O interrogatório a Hermínio Loureiro, vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol e um dos detidos na operação Ajuste Secreto da Polícia Judiciária (PJ), terminou na sexta-feira à noite, disse à Lusa fonte judicial.

Hermínio Loureiro começou a ser ouvido pela juíza de instrução criminal, Ana Cláudia Nogueira, cerca das 15h30 e saiu do Tribunal da Feira por volta das 23h00, regressando à cela da PJ do Porto, a fim de ai pernoitar pela quinta noite consecutiva, juntamente com os outros cinco arguidos detidos.

No sábado de manhã, a juíza de instrução criminal irá interrogar o ex-presidente do conselho de administração da Assembleia da República e ex-deputado social-democrata João Moura de Sá, que resolveu prestar declarações, apesar de inicialmente ter dito que não queria falar.

Para as 15h30, estão agendadas as alegações, devendo a decisão sobre as medidas de coação ser proferida apenas na segunda-feira, Antes de Hermínio Loureiro, a juíza esteve a ouvir José Oliveira, presidente da Concelhia do PSD de Oliveira de Azeméis.» [Expresso]
   
Parecer:

Com tanto incêndio no Porto  e nas autarquias e ninguém fala deste príncipe dessa combinação entre PSD, bola e autarquias, uma combinação que em tempos se uniu com o patrocínio de Santana Lopes, para ajudar Durão Barroso a chegar ao poder.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se por segunda-feira.»
  
 Um sindicalista estranho
   
«O arquivamento, noticiado nesta sexta-feira pelo Diário de Notícias, é para o presidente do sindicato, Paulo Ralha, um “verdadeiro milagre” por "branquear" os nomes apontados pela própria IGF como responsáveis, por acção ou omissão, pela “lista VIP”. Em causa estão quatro pessoas: o ex-subdirector-geral José Maria Pires, que autorizou o funcionamento do sistema num dia em que o director-geral estava ausente, o próprio ex-director-geral António Brigas Afonso e dois outros funcionários, a coordenadora da área dos sistemas de informação, Graciosa Martins Delgado, e o chefe de equipa da área da segurança informática que lhe respondia, José Morujão Oliveira. “Nem o Omo lava mais branco do que isto…”, reage Paulo Ralha, pegando numa célebre campanha publicitária de uma conhecida marca de detergente para a roupa para descrever a actuação da AT.

Se há dois anos a IGF recomendou que fossem ponderados processos disciplinares aos quatro funcionários por causa de condutas “susceptíveis” de violar, em diferentes graus, deveres profissionais previstos na Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas, o entendimento que a AT faz do caso é o oposto: os visados agiram no cumprimento dos seus deveres de protecção de dados.

“Foi criado um mecanismo desta natureza e não há responsáveis”, insurge-se Paulo Ralha, considerando que quem fica em xeque é a própria AT. “A situação é absolutamente Kafkiana, põe em causa o princípio da igualdade, os princípios da democracia, e no final não há responsáveis”, acusa, lembrando que a mesma instituição que agora arquivou os processos dos dirigentes aplicou sanções a alguns funcionários (repreensões escritas suspensas por seis meses ou um ano) por terem consultado informações fiscais de figuras públicas, mesmo não se verificando violação da protecção de dados.» [Público]
   
Parecer:

Persegue os sócios do seu próprio sindicato.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a merecida gargalhada.»

 Palhaçada moçambicana
   
«A auditoria às dívidas ocultas de Moçambique deixou por esclarecer o destino dos dois mil milhões de dólares contraídos por três empresas estatais entre 2013 e 2014, anunciou a Procuradoria-Geral da República (PGR).

"Lacunas permanecem no entendimento sobre como exactamente os dois mil milhões de dólares foram gastos, apesar dos esforços consideráveis" para esclarecer o assunto, refere a PGR em comunicado sobre a investigação feita pela consultora internacional Kroll.

Por outro lado, "a auditoria constatou que o processo para a emissão de garantias pelo Estado parece ser inadequado, sobretudo no que respeita aos estudos de avaliação que devem ser conduzidos, antes da sua emissão", acrescenta-se.» [Público]
   
Parecer:

Um procurador-geral tão nabo que não consegue dizer o que fizeram a dois mil milhões de dólares.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Sugira-se ao pobre diabo que beba água.»

 A vez dos barrosistas
   
«Mas o apoio do barrosismo à lista anti-Passos não fica por aqui. Outros três membros do Executivo de Barroso destacam-se na lista de subscritores da candidatura de Sarmento. Com relevo para José Luís Arnaud, que foi o braço-direito de Durão, depois de ter sido secretário-geral do PSD durante a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa.

Maria da Graça Carvalho, ex-ministra da Educação, e Pedro Roseta, ex-ministro da Cultura (e dirigente da distrital de Lisboa nos anos 80) estão igualmente entre os subscritores da lista de Morais Sarmento.

O antigo ministro da Presidência, que nos últimos anos foi várias vezes apontado como putativo candidato à chefia do PSD, apresentou na sexta-feira a sua candidatura e assumiu a oposição a Passos, defendendo o surgimento de um "novo PSD".» [DN]
   
Parecer:

O Morais Sarmento ainda vai passar a perna ao indeciso Rui Rio.
   
Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Espere-se para ver.»

sábado, junho 24, 2017

Impaciência

Passos fez com os incêndios o que no passado já tinha feito com processos judiciais, numa primeira fase evidencia o politico que não é oportunista para ganhar simpatias e credibilidade, numa segunda fase esquece o que disse e torna-se no político oportunista, nocivamente para conseguir votos. Com os incêndios repetiu a primeira fase da encenação, mas nunca saberemos se iria ou não repetir a segunda fase, respeitando as vítimas dos incêndios.

Nunca o saberemos porque a sua bancada parlamentar, devido a muita impaciência, não permitiu. Passos visitou a Proteção Civil,  propôs uma comissão técnica e pediu uma audiência a Belém, mas não teve tempo para mais, o grupo parlamentar do PSD forçou-o a agendar um debate que, como se sabe, servirá apenas para um espetáculo de peixerada da mais miserável.

Compreende-se a impaciência dos deputados, com o tempo as emoções dão lugar à racionalidade, as imagens fortes dos jornalismo cedem o passo a um debate sério, os bombeiros cedem o passo aos que terão de ajudar as populações a reconstruir o que foi destruído. É agora que poderão ganhar alguns votos.

Estes deputados representam os caciques locais, uma imensa tei de interesses distritais e locais e com a queda das intenções de voto no PSD em forte queda, há um sério receio de se perderem muitos lugares, muitos deixarão de ser autarcas, de ser administradores de empresas municipais ou assessores. São dezenas de milhares de militantes que perdem os seus lugares e que verão a sua forma de vida arder com uma derrota eleitoral.

Isto significa que não é com os que sofreram com os incêndios de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Góis que essa gente está preocupada. Os que querem salvar à custas dos que morreram são os que vão ficar queimados com uma derrota nas eleições autárquicas.

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Miguel Pinheiro, jornalista do Observador

Quem lê o título do artigo deste jornalista do Observador é levado a pensar que alguém tentou calar os jornalistas portugueses, algo que, felizmente, este corajoso jornalista, tal como uma boa parte dos jornalistas vivos da nossa comunicação social não sabem o que é. Ninguém neste país, governo ou oposição ou mesmo os bombeiros ou polícias incomodaram os jornalistas ou condicionaram o seu trabalho. O contrário talvez, não foram raras as imagens de bombeiros e agentes da autoridade pedindo para que os jornalistas os deixassem trabalhar.

Também se ficou com a impressão de que os centros de comando de combate ao incêndio eram centros de imprensa e que os que alia estavam tinham por função recolher notícias para alimentar o jornalistas ou que acompanhavam os incêndios para informar as televisões sobre os locais onde podiam obter as imagens mais chocantes.

mas suscitar esta questão neste momento pode revelar uma intenção um pouco mais manhosa, tenta-se passar a imagem subliminar de que alguém quer calar a verdade. Trata-se de uma mentira, nunca se viu um incêndio com tanta informação para os jornalistas. Ouviram-se muitas criticas mas não vieram de governantes, políticos da oposição e autoridades no local, viera de pessoas que se indignaram ou, como sucedeu, com o trabalho de Judite de Sousa, de outros jornalistas.

É informar entrevistar um homem poucas horas de ter visto a mulher e duas filhas morrerem em consequência de uma decisão sua' Isso é notícia? A vítima estava em condições de decidir o que seria melhor para ele naquele momento ou muito simplesmente se aproveitou a vulnerabilidade quem sofria para vender mais edições do Público.

É informar  entrevistar o sogro de uma vítima cujo cadáver está ali ao lado? É informar perguntar o que pensam de estar ali no chão a aguardar que as autoridades os retirem a familiares em sofrimento?

É sobre este género de situações que o jornalista do Observador se devia pronunciar em vez opinar sobre críticas as jornalistas sem referir quais as pessoas que fizeram as críticas que merecem a sua opinião. Diz que quem regressa dali não volta a ser o mesmo e tem toda a razão, mas regressa para o conforto do seu lar, para a comodidade da sua redação e para os braços dos entes queridos.

Mas como ficam aqueles que foram tratados como animais de circo para sucesso dos jornalistas? Como fica o homem que foi exibido a toda a página do Público dizendo que tinha mandado a família para a morte? Como fica o senhor que estava apático ao lado do carro onde tinha morrido um genro? Como estarão as senhoras cujos familiares eram cadáveres aparentemente esquecidos pelas autoridades? Não, não importa como esses ficam e é melhor não criticar os jornalistas porque eles têm o poder de destruir quem os critica ou, muito simplesmente, os políticos de que eles ou os seus patrões não gostam.

Não caro Miguel Pinheiro, ali para os lados de Pedrogão foram vistos muitos bons jornalistas, mas também andou por lá gente a ganhar à conta da desgraça alheia, os abutres. E não foram apenas os que andaram a roubar nas aldeias abandonadas, em matéria de abutres a nossa fauna é mesmo muito diversificada e, infelizmente, ao contrário de toda a biodiversidade queimada, essa fauna não foi queimada pelo fogo.

«Este texto não é corporativo. Ou antes: é. Ou melhor: é mais ou menos. No meio de tudo o que tem acontecido, a última coisa que eu queria era escrever sobre jornalistas. Mas tem mesmo que ser, porque, nos últimos dias, regressou a velhíssima caricatura do jornalista-abutre. Aqui no Observador, por exemplo, Miguel Tamen seguiu esse tortuoso caminho; no Público, a quota foi preenchida por António Guerreiro; na SIC Notícias, por José Pacheco Pereira.» [Observador]

 Agora dava jeito um cata-vento

O que dava jeito a Passos Coelho é que o Presidente da República mudasse de opinião cada semana, que na semana passada estivesse solidário com o governo face à crise dos incêndios e que esta semana se juntasse à oposição oportunista para crucificar o primeiro-ministro ou, melhor ainda, atirá-lo para o fogo do inferno, a lembrar o desejo do líder do PSD que o diabo aparecesse no país para o ajudar a chegar ao governo. Digamos que o que dava mesmo jeito a Passos Coelho era que Marcelo fosse mesmo o cata-vento que um dia ele sugeriu que era.

sexta-feira, junho 23, 2017

Os DDT da agricultura

Imagine que herdou 300 ha de terrenos sem aptidões agrícolas, algures no meio da serra ali para os lados de Góis ou da Pampilhosa da Serra. Trata-se de uma grande extensão, com difíceis acessos, de encostas pedregosas. No passado talvez pudesse plantar oliveiras ou mesmo semear algum cereal menos exigente, aveia ou centeio, para alimentação de animais. Nos dias de hoje esses terrenos não têm valor económico por não assegurarem padrões de produtividade compatíveis com os custos que a produção agrícola exige atualmente.

Resta deixar crescer o mato ou florestar, mas se crescer o mato pode ser acusado de não limpar os terrenos e ser multado por isso, quase que é forçado a florestar. Trezentos hectares é uma extensão com um terço da dimensão do Parque Florestal de Monsanto, a grande mancha verde da capital. Florestar uma área desta dimensão implica construir caminhos, limpar os terrenos, recorrer a máquinas e trabalhadores para fazer buracos, preparar o terreno e assegura a rega durante algum tempo, para além de adquirir milhares de pequenas árvores.

Resta escolher que árvores plantar, terá de escolher espécies vegetais resistentes aos fogos e de crescimento lento ou por espécies vegetais de crescimento rápido. as primeiras oferecem vantagens ambientais e ainda que sendo mais resistentes ao fogo não deixam de ser vulneráveis a incêndios, para além de doenças e pragas, mas nenhuma companhia de seguros aceita cobrir-lhes os riscos. A sua exploração só ocorrerá daqui a três ou quatro décadas, mas muito provavelmente as árvores só servirão para produzir lenha, isso se, entretanto, os ambientalistas não conseguirem uma lei que determina que essas espécies são protegidas, nesse caso a sua floresta servirá apenas para ornamento ambiental, cabe-lhe a si cuidá-la sem benefícios.

Tem uma boa alternativa, vai a uma empresa de celulose que lhe assegurará a plantação da florestas de eucaliptos a troco de uma parte da produção. Há ajudas públicas para a plantação do eucalipto e graças ao fato de se tratar de uma árvore de crescimento muito rápido em breve começará a receber receitas muito apreciáveis. 

Vai optar pelas espécies resistentes ao fogo ou pelo adorado eucalipto?

É óbvio que vai optar pelo eucalipto e é isso que explica que em poucas décadas temos uma percentagem de área com eucalipto provavelmente muito superior à da Austrália. Isso explica que tudo vale na plantação do eucalipto e que a estrada nacional 236 tivesses eucaliptos plantados quase até ao limite do alcatrão. Basta ir ver as fotografias de satélite do Google Maps para se ver que na região de Pedrogão e Góis há muitas estradas que quase não se deixam ver por estarem cobertas pelas copas das árvores.

Como é possível que as celuloses beneficiem deste ambiente favorável à sua atividades sem regras? Porque as celuloses estão para a agricultura como a banca estava para as finanças, se os banqueiros deram os donos disto tudo na economia e nas finanças, as celuloses são são os donos disto tudo no mundo rural. Da mesma forma que os ministros das Finanças se curvavam perante as exigências dos banqueiros, desde o Eng. Álvaro Barreto que quem manda nas florestas portuguesas são as celuloses.

Ainda há poucos dias o lóbi das celuloses, através da CELP, a sua Associação da Indústria Papeleira Portuguesa fez publicar anúncios pagos na imprensa criticando a reforma florestal, diziam que:

"A fileira industrial baseada no eucalipto tem sabido aproveitar os recursos naturais de que o país dispõe [...] utilizando uma espécie bem adaptada, e tem-no feito de forma exemplar, responsável e com total respeito pelo ambiente", argumentou a CELPA, defendendo que a proibição "prejudica os produtores florestais, provoca perda de competitividade da indústria da pasta e papel e contrai a economia do país".

O anúncio, que usa uma linha de argumentação muito semelhante ao das tabaqueiras em relação aos malefícios do tabaco ou das petrolíferas no que se refere ao aquecimento global, foi publicado no dia 21 de Abril, no mesmo dia Capoulas Santos, numa demonstração de grande preocupação com as críticas das celuloses, assegurava que continuaria a apoiar o eucalipto. Porque será que agora que se ouvem tantas vozes criticando os abusos das celuloses os senhores da CELPA que têm tanto dinheiro para pagar anúncios, optaram por um silêncio cobarde?

Umas no cravo e outras na ferradura



 Jumento do Dia

   
Pedro Pimpão, deputado

Para Pedro Pimpão o soldado da GNR de castanheira de Pera é membro do governo e António Costa deve ser responsável por tudo o que qualquer agente da autoridade faça.

«Os deputados do PSD que estiveram no terreno e nas zonas afetadas pressionaram o partido — na reunião da bancada social-democrata desta quinta-feira — a enfrentar a “propaganda” do Governo, apesar de o momento ser de luto. “Já chega!”, disse emocionado um dos deputados. Outro optou, também ainda abatido, por contar que a própria filha foi encaminhada pela GNR para a estrada da morte, mas decidiu seguir outra alternativa. Foram várias as vozes da bancada a insistir que está na hora de começar a escrutinar a ação do Governo.

O deputado Pedro Pimpão, eleito por Leiria e que esteve desde o primeiro dia no terreno, emocionou-se na reunião de bancada enquanto garantia aos outros deputados que o discurso oficial do Governo não bate com a realidade. “Custa-me ver toda esta propaganda sem respeito pelo que aconteceu. Sei que o PSD deve respeitar o luto mas já chega, é preciso que as pessoas saibam a verdade“, afirmou o deputado na reunião à porta fechada, de acordo com declarações recolhidas pelo Observador e que o Expresso também noticiou. A direção da bancada e a direção do partido estão a preparar-se para não dar tréguas ao Governo na busca de responsabilidades pelo que aconteceu.» [Observador]

 Sugestão

Se nos próximos dias aparecerem "especialistas", professores universitários ou políticos  a argumentarem em defesa das celuloses, com argumentos de que as críticas ao eucalipto não têm fundamento científico, que o problema é dos abusos e que o setor é fundamental para a economia, exijam-lhes que façam as suas declarações de interesses, que nos digam se de alguma forma ganham dinheiro com os eucaliptos.

 Estradas da morte

Vivemos num país onde muitas centenas de polícias e funcionários municipais se dedicam à caça às multas do estacionamento, somos perseguidos a toda a hora por agentes muito diligentes na hora de passar o aviso das multas, as instituições do Estado multa o cidadão comum por tudo e por nada.

Mas parece que o rigor no estacionamento não se aplica quando está em causa a proteção da ida, da mesma forma que em Lisboa se multa muito por estacionamento e muito pouco por desrespeito pelas passadeiras de peões, há centenas de quilómetros de troços de estradas onde a zona de segurança em que a lei proíbe a florestação não se respeita. É óbvio que os donos desses terrenos não querem prescindir neles, são os de mais fácil acesso e ao a madeira é só lucro. Mas as leis, os fiscais e os polícias servem para que o país não seja uma selva.



A imagem mostra a agora mal afamada EN236, que ficou conhecida por "estrada da morte". Trata-se de um troo na zona onde se registaram as mortes numa imagem do Google Maps anterior ao incêndio. Quem quiser pode percorrer essa estrada recorrendo ao Street View. Em muitos troços, como o da imagem os eucaliptos chegam à beira do asfalto, estando separados por uma vala de meio metro.

Ninguém viu isto na estrada EN236, o mesmo sucedendo em centenas de troços de estrada deste país? Quem fiscalizou a EN236, quem são as suas chefias imediatas que fizeram de conta que davam ordens para cumprir e fazer a cumprir a lei? O que levará a que muitos responsáveis e agentes da autoridade ignorem a lei num país com tantos e tão violentos incêndios.

O mínimo que se exige é que os responsáveis pela fiscalização deste troço sejam acusados de homicídio involuntário. Aposto que nas semanas seguintes vão chover multas e ordem para abater eucaliptos que estão na beira da estrada.

Não faria sentido aumentar aquela distância para vinte metros? Imagino que os madeireiros e as celuloses não gostariam, mas que se danem, à frente dos seus interesses está a segurança dos portugueses.

      
 Não deixar morrer
   
«Toda a gente está a falar da tragédia de Pedrogão. Muitos se lembram da última vez que se falou da última tragédia. Exprimem-se indignação, revolta, angústia e desespero. Às forças da inércia, da preguiça, do statu quo, do deixa-andar que acaba por dar em deixa-arder, basta esperar que tudo passe. Até acontecer outra tragédia e começar tudo outra vez.

Como se pode impedir este sistema cómodo e assassino de sobreviver? As forças do deixa-arder, para disfarçar, erguem-se a protestar também, para não destoar. As forças do deixa-arder tudo fazem para deixar desabafar quem quiser. É desabafando que eventualmente perderemos o fôlego. Depois do desabafo - contam esses poderes instalados - virão o cansaço, o abatimento, a desistência e a aparência externa, politicamente crucial, de indiferença e esquecimento.

Malfeitores são também os que não fazem nada ou só fazem o mínimo para parecer que respondem aos protestos. Malfeitores são também os que, no momento da tragédia, prometem fazer o que ainda não fizeram. Esses são os primeiros a esquecer as promessas. Só se lembram delas para voltar a fazê-las: as mesmas promessas com que nos calaram da última vez.

Como se há-de manter este saudável sobressalto em que tantas vozes discordantes se levantam? Como se há-de manter esta heróica teimosia em repetir o que já se gritou tantas vezes em vão?

É a quantidade de vozes que importa, até mais do que dizem ou divergem. É preciso que não se calem, para que não contem com o nosso silêncio.» [Público]
   
Autor:

Miguel Esteves Cardoso.