quarta-feira, setembro 27, 2006

A Síndrome do Cavalo de Alter


«Numa aldeia alentejana havia um garanhão que cobria todas as éguas das redondezas, o seu sucesso era tanto que despertou a atenção dos responsáveis pela coudelaria de Alter, estes não hesitaram e decidiram comprá-lo pelo preço que o dono pediu.

Chegado às cavalariças da coudelaria o cavalo revelou-se uma desilusão, nunca mais cobriu uma égua, nem justificava a palha onde se deitava. Interrogado sobre a causa de tal mudança de atitude o cavalo justificou-se, agora já não precisava de se esforçar, era um funcionário público.»

Sempre que se fala da Função Público ouço logo muita gente que sofre da “síndrome do Cavalo de Alter” que eu designaria como um trauma que os leva a considerar que todos os que são funcionários públicos são inúteis por definição. A última manifestação da síndrome do cavalo de Alter foi o relatório da comissão que andou a estudar o sistema remuneratório da Administração pública. A peregrinação ao Beato promovida pelo Compromisso Portugal não foi mais do que um encontro de vítimas da "síndrome do cavalo de Alter".

Basta diagnosticar a presença da síndrome no doente e sabemos logo o que ele vai dizer, há 200.000 funcionários a mais, os funcionários só devem geridos acenando com uma cenoura, muitas das suas funções seriam melhor desempenhadas se fossem entregues a empregados do Belmiro, a mezinha é sempre a mesma. Outro sintoma da síndrome é a incapacidade de ver uma boa parte do sector privada os mesmos males da Administração Pública, aquilo a que o psicólogo contratado pelo advogado do Bibi designou por "amnésia lacunar", isto é, esquecem-se de uma boa parte da realidade.
Um dos aspectos mais curiosos da expansão desta doença é que tem vindo a aumentar ao longo dos anos, tendo-se generalizado com o fim do acesso fácil ao fundos comunitários, quando o dinheiro fácil abundava e o Estado gastava sem qualquer controlo a doença quase não se manifestou. Com o acréscimo da competitividade nos mercados externos e o fim dos dinheiros fáceis da União europeia temos vindo a assistir a uma epidemia.

Como muitos dos paciente da síndrome também acho que a má gestão da Administração Pública tem levado ao seu crescimento desnecessário, que com menos recursos é possível produzir mais e com melhor qualidade, que os níveis de produtividade são inferiores aos desejáveis.

Mas os nossos doentes não se preocupam nem com o excesso de burocracia, nem com os maus modelos de gestão, nem com a incompetência dos gestores que nomeiam. Veja-se, por exemplo, o caso de um tal Pinguinha que fazia parte do grupo que agora foi dispensado por se ter atrasado na entrega do relatório sobre as remunerações da AP. Esse Pinguinha foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Bagão Félix e que se saiba ninguém o viu preocupado com a gestão do Fisco, para além do habitual empenho na nomeação de um ou outro amigo. Terá ficado a saber que os mais de 13.000 funcionários do Fisco cada vez que abrem o Outlook Express para ler o correio electrónico têm tempo que dá para ir ao wc fazer um xixi e voltar? Alguém contou as horas de trabalho que custa ao país a má gestão da rede informática do Fisco ou questionou como foram gastos os muitos milhões de euros que já foram investidos nela? Quem poderia dar algumas respostas é uma das empresas que patrocinaram o Compromisso Portugal, a Novabase, que nos últimos anos quase lançou uma opa sobre os dinheiros da DGITA.

O Estado carece de um processo de modernização que elimine a burocracia e a corrupção, que melhore a qualidade dos serviços que presta e que reduza os seus custos. A redução do número de funcionários será uma consequência e não um objectivo, o que se deverá estabelecer como objectivo é a redução de custos e isso não resulta apenas da redução do número de funcionários. Só que este simples raciocínio não está ao alcance dos que padecem da "síndrome do cavalo de Alter".