sábado, setembro 12, 2009

Ou se governa ou se desgoverna

O mínimo que se pode dizer da proposta de nacionalização das empresas energéticas feita pelo Bloco de Esquerda é que é leviana, nada diz sobre as consequências financeiras, nada assume quanto ao modelo de negócio, não avalia as consequências sobre a economia, não avalia o impacto sobre os preços da energia, apenas propõe um milagre. Parece que o BE quer ser mais de esquerda do que o PCP, mais revolucionário do que o PCP e mais social-democrata do que o PSD.
Desta vez Louça propõe a nacionalização das energéticas e poupa a banca, não será difícil de perceber que quando tiver mais votos será a banca, as auto-estradas ou outros sectores cujas empresas suscitem a desconfiança dos portugueses. Aliás, o programa do BE não propõe apenas a nacionalização das energéticas, ainda que ninguém tenha reparado propõe também a estatização das misericórdias e de outras instituições de solidariedade social.

Só que uma nacionalização tem custos, a não ser que seja uma expropriação pura e simples e Louça não faz qualquer avaliação, ele que sabe tantos números diz que essa questão vê-se depois.

Só que Portugal não está em autarcia e uma nacionalização significaria um gesto chavista em plena Europa e poria em causa o investimento estrangeiro, indispensável à criação de emprego e ao financiamento da economia portuguesa. Imagine-se um governo liderado ou condicionado pelo Bloco de Esquerda e à estratégia da extrema-esquerda, não é difícil de concluir que Portugal tenderia para a autarcia.

A troco de uns cêntimos no custo da energia teríamos que suportar a quebra do investimento estrangeiro, da desconfiança da generalidade dos investidores e todas as consequências daqui resultantes.

Votar segundo uma lógica de descontentamento é colocar Portugal num beco sem saída, num momento em que é indispensável governar e proceder a reformas esse voto apenas tem como consequência uma grave crise política de consequências políticas imprevisíveis.

Um país precisa de uma estratégia coerente, consistente e levada do princípio ao fim, isso significa que um governo ou conta com uma maioria absoluta ou existe no parlamento uma maioria de deputados interessadoa no futuro do país. Se existir no parlamento uma minoria de bloqueio constituída por deputados que sonham com utopias e estão convencidos de que essas utopias pressupõem o desmoronar do sistema político e económico, o país corre um sério risco de ser incapaz de resolver um único dos seus problemas.

O voto de protesto pode ter uma factura muito elevada, pode levar a um governo bem pior do que aquele contra o qual se protesta ou mesmo conduzir a um regime político onde não há lugar a protestos. Portugal precisa de ser governado e isso implica escolher o melhor governo, é isso que os eleitores vão escolher no dia 27, vão escolher entre um governo de Ferreira Leite tutelado por Cavaco Silva ou num governo de José Sócrates.

Umas no cravo e outras na ferradura

FOTO JUMENTO

Porto

IMAGENS DO DIA

[Pervez Masih/Associated Press]

«A girl collected oil Friday spilt from tankers after two cargo trains collided near Hyderabad, Pakistan. At least five people were injured, officials said.» [The Wall Stret Journal]

IMAGENS DO DIA

[Supri/Reuters]

«A woman scrambled with her belongings at a Jakarta, Indonesia, port Friday as she tried to get on a ship that will take her to her hometown. Thousands have started an annual exodus ahead of the Muslim Eid al-Fitr holiday.» [The Wall Stret Journal]

JUMENTO DO DIA

Francisco Louçã

O mínimo que se exige a um líder da extrema-esquerda é que ganhe o debate com o líder do partido mais à direita, isso não sucedeu, na melhor das hipóteses Louçã pode falar em empate, ainda que tenha ido mais vezes às cordas.

Mais uma vez Louçã parte para o debate com um saco cheio de truques e partidas manhosas, mas a sua estratégia já é conhecida e não resultu. Acabou a questionar Portas sobre se duvidava da sua dignidade. Ninguém duvida, pois não? Não, Louçã é a nossa Senhora de Fátima da política portuguesa, apareceu para nos salvar e levar-nos pelo bom caminho.

UMA PERGUNTA INGÉNUA

Se em vez de ter dedicado os seus jornais da Sexta ao caso Freeport, Manuela Moura Guedes se tivesse dedicado a atacar o negócio de Cavaco Silva com as acções da SLN andaria tanta gente com sintomas de claustrofobia democrática?

E o facto é que se contra Sócrates ninguém provou nada, já em relação a Cavaco Silva toda a gente sabe que o presidente e a filha ganharam cada um mais de 70 mil euros com um negócio estranho de acções, cujo preço de venda e de compra foi fixado por um sujeito chamado Oliveira e Costa. Mas parece que os nossos famosos jornalistas de investigação estão muito distraídos.

OUTRA PERGUNTA INGÉNUA

As investigações do caso BPN estão a andar a bom ritmo?

E AINDA OUTRA PERGUNTA INGÉNUA?

O que é feito da Operação Furacão?

O DEBATE ENTRE LOUÇÃ E PAULO PORTAS

Para a extrema-esquerda um líder que se preze tem a obrigação de derrotar Paulo Portas enquanto líder da direita, o mínimo que se exigia a Louçã era uma vitória clara sobre o líder do CDS e isso não sucedeu. Portas conseguiu colocar Louçã na defensiva em muitos temas, por várias vezes desmontou os estratagemas manhosos do adversário, cegou mesmo a incomodar Louça ao ponto deste protestar pelas interrupções.

Porta foi inteligente ao levar Louçã a defender políticas cuja autoria é do PS, em muitos momentos falou mesmo como se essas políticas fossem suas. Em contrapartida, louçã não conseguiu encurralar Portas, só o fez, de forma menos elegante, na sua última intervenção, porque sabia que Portas não teria tempo para lhe responder. Aliás, um truque que aprendeu com Manuela Ferreira Leite, a líder do PSD fez exactamente o mesmo com Paulo Portas.

O balanço final poderá ter sido um empate, mas este resultado só favorece Paulo Portas já que se o BE dificilmente rouba votos ao CDS, já o mesmo não se pode dizer da possibilidade de o CDS ter ganho votos ao BE, muitos dos seus eleitores, principalmente os filhos da classe média, tanto votam BE como poderiam aderir à juventude centrista.

AVES DE LISBOA

Gaivota-pequena [Larus minutus]
Local: Terreiro do Paço [09-02-2009]

FLORES DE LISBOA

No Jardim Botânico

VOTOS ÚTEIS E OUTROS MENOS

«Sondagens, se há coisa que parece certa é ninguém chegar à maioria absoluta. Cada um dos que poderiam esperar essa maioria, o PS ou o PSD, não a conseguindo, com quem vai governar? Por isso se aguardaram com maior interesse os debates entre os mais iguais e não entre os que mais se afastam: Sócrates contra Louçã e Manuela Ferreira Leite contra Portas. É natural, eles disputam o eleitor daquele limbo que pode cair ora para um lado, PS ou PSD, ora para outro, BE ou CDS. Aos grandes, o PS e o PSD, que não podem declarar-se já vencidos na maioria absoluta (faz parte das regras do jogo: em campanha eleitoral, nenhuma derrota pode ser previamente admitida), basta-lhes dizer que estão para ganhar e não discutem cenários. Já os pequenos precisam de convencer que são úteis para fazer a maioria. Ontem, Portas foi claro: quer esse negócio com o PSD. Já o BE não foi por aí, não incita o PS a acordos futuros. A razão é simples: o campeonato de Francisco Louçã não é esta campanha, é ser o maior da esquerda, um dia. Portas é razoável, Louçã não é. É tão simples quanto isso.» [Diário de Notícias]

Parecer:

Por Ferreira Fernandes.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

A LOURAÇA LEGÍTIMA

«A minha mulher começou a andar de peruca e está de tal forma uma brasa que os próprios sobrinhos, quando lhes mandei uma fotografia da tia, responderam-me com "kem és tu?", pensando que era alguma gaja gira a meter-se com eles. "They should be so lucky", como diria um judeu americano. A peruca é japonesa e hi-tech e já me está a tramar a vida. Não é por me sentir culpado por cobiçar a mulher de outrem. Como sou eu o outrem, até é sexy.

São os outros que pensam, quando me vêem com ela na nova peruca, que, mal descobri que tinha um cancro, arranjei outra. Houve um cozinheiro, muito nosso amigo, que chorou quando nos viu, sentados na nossa mesa do costume, a namorar. Disse ele: "E eu que gostava tanto do Sr. Miguel!" Como é tão boa pessoa como bom cozinheiro, até faz esparregado para ela, já que a quimioterapia altera um bocado os gostos.

Mas, quando o empregado lhe pediu, para além dos carapaus, um esparregado para nós os dois, ele atirou a colher ao chão e gritou: "Eu para essa não faço esparregado! Só faço para a Sra. Maria João!"

Como quem diz: este adúltero não só deixa a mulher, mal ela adoece, como tem a lata de pedir, para as amásias, os petiscos que aliviam a doença da legítima!

Começam a tratar-me mal. Eu faço questão de dizer, a todos que passam por mim, "Esta é a minha mulher, calma!" Mas na estrada é difícil.

E ela não ajuda, porque diz sempre: "Deixa-te de fitas, querido. Tu sempre odiaste a tua mulher..." » [Público]

Parecer:

Por Miguel Esteves Cardoso.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

EXISTEM CLASSES?

«A certa altura, no debate com Ferreira Leite, Jerónimo de Sousa ficou indignado. "Não me digam que não existem classes!", protestou ele. Mas, de facto, existem? É evidente que há por aí um movimento para a reabilitação de Marx ou, pelo menos, para que se torne a procurar em Marx uma espécie de "teoria" da esquerda. Até Mário Soares - que não leu O Capital, segundo ele mesmo francamente confessa - se juntou ao coro. O que se compreende. A condenação do "neoliberalismo" precisa de um contraponto e ninguém sabe onde o ir buscar - embora o que impropriamente se chama "neo-capitalismo" não passe de uma hipótese (muito limitada) sobre a relação entre os valores de bolsa e a economia real e Marx e os "marxismos" se pretendam uma interpretação da história.

De qualquer maneira, a pergunta de Jerónimo de Sousa é uma boa pergunta: existem classes? Para começar, convém esclarecer que Marx nunca definiu o que fosse uma "classe". Nem ele, nem Engels, nem Lenine, nem depois ninguém. Até o "proletariado" exigiu sempre uma qualificação adicional e, às vezes, várias. Como a burguesia e a "classe média", que, essa, não cabia (e não cabe) em arrumação alguma, por muito perfeitinha e pormenorizada que seja. Ainda por cima, se no século XIX e na primeira metade do século XX, a sociedade (europeia, claro) permitia ver a olho nu as diferenças de posição entre, por exemplo, um operário, um médico e o dono de uma grande empresa, a partir de 1980-1990 uma sociedade mais complexa criou uma gradação contínua, em que é difícil distinguir um grupo fixo ou uma hierarquia clara.

Exactamente por isso Jerónimo de Sousa não se apresenta hoje como o representante de nenhuma "classe" em particular. Fala de maneira geral em trabalhadores, contribuintes, desempregados. Como toda a gente, de resto, porque do Bloco ao CDS não há um único partido que possa rejeitar ou prescindir do "contrato social" em que assenta o regime. É, em última análise, esta conformidade que tornou os debates num argumento técnico (sem especial interesse) sobre o melhor método de tratar a crise internacional e a crise indígena. Se existissem "classes", como julga Jerónimo de Sousa, ele não perderia um minuto a discutir com Ferreira Leite o investimento público ou o défice do Estado, pela razão simples de que Portugal e a Europa estariam perto de uma sublevação. » [Público]

Parecer:

Por Vascom Pulido Valente.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

PASSOS COELHO NA COMISSÃO DE HONRA DE SANTANA LOPES

«Manuela Ferreira Leite exclui-os das listas do PSD, mas Pedro Santana Lopes foi buscá-los para Lisboa. Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas vão integrar a Comissão de Honra da candidatura social-democrata à autarquia da capital.

Passos Coelho, adversário da actual presidente do partido e do próprio Santana Lopes na corrida à liderança do PSD, bem como Miguel Relvas, ex-deputado social--democrata, estiveram no centro da polémica quando foram conhecidas as listas do PSD. Vozes críticas da actual liderança do partido, os responsáveis foram afastados por Ferreira Leite, que, no caso de Passos Coelho, justificou a opção com "razões pessoais". Em relação a Miguel Relvas, defendeu: "Não esteve com o partido."» [Correio da Manhã]

Parecer:

Pobre Passos Coelho.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Lamente-se a aceitação de um papel tão pouco digno.»

LOUÇÃ ANTECIPA GUERRA COM CAVACO SILVA

«No programa da SIC Os candidatos como nunca os viu, emitido na última quarta-feira, Francisco Louçã dá nome à fonte anónima. "Um dos entretenimentos deste Verão foi esta história do Presidente: faz saber por via do dr. Fernando Lima, que é uma fonte anónima da Presidência da República, que achava que tinha sido escutado em Belém".

Identificando este episódio como um exemplo de uma "parte da política que se transformou numa espécie de representação para si própria", Francisco Louçã aponta este caso das escutas para denunciar uma "dramatização absurda das coisas, que prova que são pessoas que não estão à altura dos cargos".

Questionado pela jornalista Raquel Alexandra sobre a quem se refere, o líder bloquista esclarece que é ao Presidente da República. "Não quis dizer uma palavra, falou por fontes paralelas", critica o também deputado. Que volta ainda ao tema: "O Presidente fez uma insinuação através de uma pessoa de confiança da Casa Civil, que é anónima mas toda a gente sabe quem é, de que teria havido uma escuta".» [Diário de Notícias]

Parecer:

Esperto, está a antecipar-se ao PS.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Solicite-se um comentário ao presidente da República.»

FENPROF ENTRA NA PARANÓIA DA GRIPE A

«São os casos da ginástica de solo, acrobática e de aparelhos, cujo contágio não é evitável, tendo em conta que vários alunos utilizam o mesmo espaço.

A Fenprof exigiu hoje que determinadas áreas do programa de Educação Física do ensino secundário, como ginástica de solo, acrobática e de aparelhos, não sejam leccionadas, de forma a evitar o contágio pelo vírus da gripe A (H1N1).» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Quem não sabe o que fazer faz colheres de pau.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Dê-se a competente gargalhada.»

ANNA PONOMAREVA

FOUNDATION ABBÉ PIERRE

sexta-feira, setembro 11, 2009

Asfixia democrática, a minha experiência

Comporto-me como blogger como o faço no dia-a-dia, digo o que penso sem pensar em consequências, há muito que aceitei que neste país ou se usufrui da liberdade ou se é ambicioso, combinar as duas coisas é difícil. Muitos portugueses dão-se mal com a liberdade e quem “fala demais” é marcado como se uma vaca se tratasse.

Ao longo destes anos já recebi centenas de mails ofensivos, já li milhares de comentários que apenas visaram ofender-me a mim ou a terceiros, já fui alvo de uma tentativa de silenciamento, o Ministério Público já tentou identificar o autor deste blogue, a IGF já leu milhares de mails do fisco em busca de fantasmas. E não chamei “filho da puta” a nenhum primeiro-ministro. Até agora recebi um único mail ameaçador, de uma figura próxima do círculo de Manuela Ferreira Leite, mas esse assunto resolverei um dia destes com dois tabefes nessa figura.

Já critiquei violentamente muitos ministros, já coloquei dezenas de adjectivos ao ministro das Finanças, já fiz montagens em Photoshop de fotografias de José Sócrates que até estão a ser usados em Powerpoints postos a circular por gente do PSD. Todavia, nunca recebi qualquer sugestão para ser mais macio, nunca fui pressionado profissionalmente, isso apesar de muitos directores-gerais saberem que sou o autor do blogue, nunca isso sucedeu e O Jumento já conheceu três governos.

Depois de ter sido notícia porque o Ministério Público tentou identificar o autor do blogue pedindo ajuda à Interpol houve quem me questionasse como poderia votar no PS nestas eleições. Sucede que o Ministério Público não actua a mando do governo e o processo foi aberto com uma queixa de dois altos responsáveis da DGCI, ambos nomeados para os cargos por Manuela Ferreira Leite, o director-geral dos Impostos, agora administrador do BCP, e o director de finanças de Lisboa, um ex-chefe de gabinete de Dias Loureiro.

Protestei contra o acesso da IGF a milhares de mails de funcionários do fisco, uma busca que nunca foi bem explicada e que terá sido autorizada pelo ministro. Só que essa autorização referia-se ao plano de actividades da IGF que não referia a metodologia escabrosa e abusiva que ia utilizar. Sucede que o inspector-geral de Finanças foi nomeado pelo PSD e um ex-chefe de gabinete de Durão Barroso.

Não conheço ninguém do PSD que tenha sido incomodado, muitos dos boys do PSD foram reconduzidos em altos cargos (director de finanças de Lisboa, Inspector-geral de finanças, etc.) ou mesmo promovidos, conheço muitos militantes (alguns com um passado de participação em saneamentos políticos) do PSD que foram promovidos a altos cargos por este governo.

Quando fala em asfixia democrática a líder do PSD não se pode limitar a evasivas, deve dar exemplos concretos para além do caso de Manuela Moura Guedes, que há muito tempo que deveria ter levado um pontapé no traseiro.

Eu até poderia ignorar os intervenientes e juntar a minha à sua voz, mas mesmo que tivesse razões de queixa nunca me juntaria com o professor Charrua, exercer a liberdade de expressão é uma coisa, ser bandalho é outra. Quando senti a minha liberdade em causa tomei posição, denunciei, critiquei, exerci o meu direito à liberdade. Não me recordo de algum político se ter manifestado contra a tentativa de perseguir um blogger sem ter qualquer crime para justificar o pedido de intervenção da Interpol. Não me recordo de nenhuma voz do PSD se ter indignado por a IGF ter tido acesso a todos os mails de milhares de funcionários do fisco. Porquê? Porque o trabalho sujo destes exemplos de asfixia democrática foi protagonizado por boys do PSD!

É por isso que perante esta lenga, lenga de Manuela Ferreira Leite fico na dúvida se devo responder-lhe à Almirante Pinheiro de Azevedo ou à professor Charrua. Não o faço porque os meus valores são outros.

Umas no cravo e outras na ferradura

FOTO JUMENTO

Constância

IMAGEM DO DIA

[Ramon Espinosa/Associated Press]

«Riot police detained a student who held a book that reads in French: “The Rights of Human Beings and Citizens” in Port-au-Prince, Haiti, Wednesday. People have been protesting for higher wages, curriculum modifications and other changes.» [The Wall Street Journal]

JUMENTO DO DIA

Judite Sousa

O papel de Judite Sousa no debate entre Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite não foi o de entrevistadora, ao longo do debate comportou-se como uma assessora de imprensa da líder do PSD. Apercebendo-se do cansaço da líder do PSD Judite Sousa veio várias vezes em socorro de Manuela Ferreira Leite, interrompia-a com perguntas que serviam para a ajudar a organizar o discurso, sintetizava-lhe as conclusões quando lhe parecia que as ideias estavam baralhadas, completava-lhes as frase quando faltavam as palavras.

Chegou mesmo a dar a oportunidade a Manuela Ferreira Leite de corrigir a gafe das taxas do IRC cometida no debate com Jerónimo de Sousa.

Será pensar na Judite Sousa que Pacheco Pereira tanto critica o suposto controlo da RTP pelo Governo?

O DEBATE ENTRE PAULO PORTA E A TIA MANELA

Como coloco no título fiquei com a sensação de que em vez de um debate entre líderes partidários estava a assistir a um debate entre Portas e a Tia Manela, a ternura com que a líder do PSD tratava o líder do CDS e o ar de sobrinho maroto com que este estava.

Não resisto a um outro comentário sobre a forma como se apresentou Manuela Ferreira Leite que ao longo desta pré-campanha parece estar mais em busca do elixir da juventude do que de votos. Hoje até pintou os lábios de forma tão agressiva que parecia a Manuela Moura Guedes com menos vinte quilos.

Gostei de ver Judite de Sousa corrigir o erro que Manuela Ferreira Leite cometeu no debate com Jerónimo de Sousa ao confundir a taxa do IRC com a do IRS. Judite de Sousa até abanou a cabeça com ar de professora primária quando a líder do PSD procedeu à correcção com ar de quem não se tinha enganado. Aliás, Judite de Sousa comportou-se no debate como se fosse a secretária pessoal de Manuela Ferreira Leite, até chegou a sintetizar as intervenções e tirou conclusões, numa tentativa evidente de clarificar o discurso baralhado da líder do PSD, que se apresentou no debate com ar cansado.

Quanto ao balanço do debate parece-me ser evidente, Paulo Portas ganhou por grande margem.

VIGILÂNCIA

Depois de tanta polémica sobre as supostas vigilâncias ninguém estranhou que jornlistas da SIC e da TVI tenham gravado e divulgado sem autorização uma conversa privada sem qualquer interesse. Enfim, pelos critérios da nossa comunicação social só os jornalistas estão autorizados a vigiar cidadãos sem que sejam sujeitos a qualquer controlo.

JUIZ CALA GONÇALO AMARAL

Pessoal não gosto de Gonçalo Amaral, os ex-inspector da PJ que conduziu as investigações do caso Maddie, não gosto dele nem aprecio o seu comportamento, mas nunca me passaria defender que ficasse calado e impedido de comentar factos que conheceu, só porque esses comentários incomodam a tese dos pais da criança desaparecida. Dizem os pais da criança que Gonçalo Amaral não tem provas da sua morte, mas o facto é que a tese do rapto deixa muito a desejar.

Que o ex-inspector fosse condenado por ofensas morais aos pais de Maddie e, consequentemente, o livro fosse retirado das bancas até poderia concordar. Mas não posso aceitar o silenciamento do homem só porque um juiz assim o decidiu.

AVES DE LISBOA

Toutinegra-de-barrete-preto [Sylvia atricapilla]
Local: Campo das Cebolas [10-02-2009]

FLORES DE LISBOA

No Jardim da Fundção Calouste Gulbenkian

FALTA UM JANTAR A LOUÇÃ

«Quando o MES acabou (por lá passaram Sampaio e Ferro Rodrigues, entre outros) deu um jantar para anunciar: acabámos. O jantar limpou a cabecinha dos militantes, ajudou-os a fazer o luto de uma luta política, revolucionária, passando para outra, democrática (burguesa, diriam antes). Fez-lhes bem o jogo limpo: ontem íamos por ali, agora, vamos por aqui. Muitos deles foram depois ministros e patrões (o que antes combatiam radicalmente). Os que continuaram agarrados às antigas ideias chamarem-lhes vira-casacas, mas não puderam acusá-los de mentir na sua evolução. Não se passou o mesmo com o Bloco de Esquerda. Essencialmente, este é formado pelos trotskistas do PSR e os maoístas da UDP, correntes revolucionárias. Ora nem o PSR nem a UDP fizeram a proclamação política do seu fim, só deixaram estiolar as siglas. Mas Francisco Louçã apresentou-se no debate com Sócrates assim: "Sou socialista, laico e republicano." Então, quando é que deixou cair o "revolucionário"? Não tenho dúvidas de que, no fundo, tenha deixado, e que talvez venha a ser ministro num governo a que chamaria burguês há poucos anos. Mas parece-me que lhe falta, a ele que dá tanta importância à ideologia, que o diga na teoria, antes de ser definitivamente comprovado, na prática, que mudou.» [Diário de Notícias]

Parecer:

Por Ferreira Fernandes.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

ESTOU GORDA

«Num recente reencontro entre dois grupos de ex-ginastas, um dos meus colegas do grupo masculino volta-se para uma das antigas ginastas da classe feminina e pergunta-lhe admirado: “- Ena pá! Estás grávida?” Responde-lhe ela: “- Não! Estou gorda…”

Este meu amigo fala verdade, ou melhor, gosta de a conhecer, e coloca questões de difícil resposta e politicamente incorrectas.

Se uma amiga nossa está gorda, devemos dizer-lho ou omitimos o facto por gentileza? Em que medida o nosso comentário é benéfico à pessoa?

Quando um doente enfrenta um médico que lhe comunica a possibilidade de um grave problema de saúde, há uma de duas reacções típicas por parte do doente: perguntar, querendo saber tudo, mesmo a notícia de uma doença incurável e com mau desfecho previsível; ou parar ali mesmo a conversa para não descortinar o futuro que o espera. Será lícito ao médico comunicar-lhe o que ele não quer saber, uma vez que vai deprimir-se e exasperar-se na perda da esperança?

Perante uma notícia económica grave, deve o governo comunicá-la aos cidadãos, podendo agravar o estado de pessimismo que inevitavelmente se repercutirá na redução do investimento e do bem-estar social a prazo, ou deve omitir essa informação, ou pelo menos mitigá-la na forma de a apresentar, de modo a desmobilizar o que de mal daí possa advir com a sua comunicação? "Já não estás tão magra..."

De acordo com os melhores princípios éticos a mentira e a omissão são censuráveis se levam terceiros a agir de modo diferente do que agiriam com o conhecimento da verdade.

Se uma empresa cotada mentir no apuramento dos resultados isso pode levar terceiros a oferecerem quantias diversas das que ofereceriam para compra ou venda das acções se estivessem de posse da verdade.

Quando o PIB cresce 0,3% do 1º trimestre para o 2º trimestre de 2009, deve ou não insistir-se na quebra acentuada do mesmo em 3,7% face ao trimestre homólogo de 2008, ou na queda do investimento de 19,4% também face ao trimestre homólogo do ano anterior? Sublinhar as fraquezas dos números é alimentar o pessimismo estéril?

Mas não saberão todos os empreendedores ler os dados disponíveis? Será que ao mostrar dúvida e insegurança sobre a recuperação da economia portuguesa, o ministro das Finanças ou o primeiro-ministro estarão a cavar a crise de expectativas negativas com impacto no investimento?

Penso que não. Ouvir a verdade económica pode custar, mas custarão mais os resultados desastrosos de sobre-optimismo que conduzem a bolhas especulativas não duradouras e sustentáveis, e que quando rebentam causam mais mal, do que o bem que proporcionaram na sua insuflação.

A minha amiga gorda continua gorda, insensível às palavras do meu amigo.» [Diário Económico]

Parecer:

Por João Duque.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

ÓCULOS COR-DE-ROSA

«"Não é nada": estas são as três palavras que mais se ouvem nos oculistas de Portugal, quando nos ajeitam os óculos, tenham sido comprados lá ou noutra loja. Para mais, fazem sempre estas pequenas reparações (que usam aparelhos caros e requerem anos de aprendizagem) com um sorriso; sem publicidade gratuita e, quase sempre, dão-lhes uma boa limpeza também.

A semana passada, num oculista da Ericeira, em vez de agradecer e engolir em seco mais uma destas inexplicáveis generosidades, atrevi-me a perguntar se pertenciam a alguma Maçonaria que os obrigasse a ajudar os aflitos por uma questão de irmandade."Não", foi a resposta surpreendida do meu socorrista, "temos tabelas para certas reparações mais morosas - mas ficava-nos mal cobrar por estas coisas que não nos custam nada".

"Claro que custam: a experiência; os ordenados; a renda; a electricidade; os aparelhos", respondi eu.

"Mas não é por dar uma ajudinha que essas coisas custam mais", disse ele, chateado com a minha presunção, que porventura terá confundido com desconfiança.

Isto já acontece desde que eu comecei a usar óculos, em 1963. E em dezenas de oculistas, porque, apesar destes mimos, nunca fui fiel a nenhum. Diz muito acerca do tipo de pessoa que eu sou (um traidor e um oportunista) mas, se eu não fosse assim ruim, como é que eu descobriria que é uma bondade generalizada?

Parece o diabo a falar, zangado por não compreender porque é que há pessoas que não são más.» [Público]

Parecer:

Por Miguel Esteves Cardoso.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

CALARAM GONÇALO AMARAL

«Depois de 175 mil cópias vendidas, de os direitos de A Verdade da Mentira já terem sido vendidos para Espanha, França, Itália, Alemanha, Dinamarca e Holanda, de o documentário baseado no livro e exibido pela TVI ter alcançado os 2,2 milhões de espectadores e de uma cópia digital da obra estar a circular livremente na Internet, um tribunal português proibiu a venda do livro de Gonçalo Amaral, ex--inspector da Polícia Judiciária que investigou o caso do desaparecimento de Madeleine McCann.» [Diário de Notícias]

Parecer:

E ninguém fala de asfixia judiciária?

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Solicite-se comentário ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.»

LOUÇÃ TENTA REPARAR DANOS DO DEBATE COM SÓCRATES

«"Podia ter corrido melhor? Podia, claro." Dirigentes do Bloco de Esquerda admitiram ontem ao DN, genericamente nestes termos, que o frente-a-frente de Francisco Louçã com José Sócrates, anteontem, na RTP1, resultou pouco favorável ao líder bloquista, contra as suas próprias expectativas. Foi o programa mais visto na televisão e de todos os frente-a-frente já realizados o que realizou a segunda maior audiência.» [Diário de Notícias]

Parecer:

O título da notícia diz tudo.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Aguarde-se pelas eleições.»

BOICOTARAM AS ELEIÇÕES E JÁ TÊM BANDA LARGA

«"A rede banda larga foi instalada no edifício da junta na passada sexta-feira, mas o serviço já existe em alguns pontos da freguesia desde meados de Agosto", disse hoje à Lusa o presidente da Junta de Freguesia, Victor Silva (PSD), congratulando-se com este desfecho.» [Diário de Notícias]

Parecer:

Deve ter sido o único boicote eleitoral com o objectivo de ter acesso à banda larga, sinal de que o país mudou.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Felicite-se o presidente da junta.»

MAIS UM QUE QUER SER PORTUGUÊS PARA JOGAR NA SELECÇÃO

«O avançado brasileiro do FC Porto Hulk disse hoje, quinta-feira, continuar disposto a representar a selecção "canarinha", mas não rejeita a hipótese de jogar pela selecção nacional portuguesa.» [Jornal de Notícias]

Parecer:

Ainda agora chegou a Portugal e já se sente português...

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Fale-se ao presidente da federação e trate-se da papelada.»

MOBEU CHOB

GREENPEACE